A seca da bacia amazônica causou a morte de milhares de peixes, na região do Paraná do Juçara, no município de Coari (a 363 quilômetros de Manaus), nesta semana. Segundo especialistas ouvidos por A CRÍTICA, o fenômeno ocorre devido à falta de oxigenação dos peixes e à mudança de temperatura durante o período de vazante dos rios no Amazonas.
Nos últimos dias, vídeos que circularam na internet mostram moradores locais impressionados com o fenômeno. Em um dos vídeos, uma ribeirinha fala de “fartura de peixes” e mostra que, a quantidade de peixes era tão grande no local, que era possível pegar os peixes com as mãos. Em outro vídeo, os moradores registram a morte de milhares de peixes na mesma região.
O fenômeno natural causa dano socioambiental e econômico. A grande quantidade de peixes mortos pode dificultar a locomoção dos moradores pelo rio quando acontece em uma região próxima a uma comunidade. Além disso, o processo de decomposição das espécies mortas também causa mau cheiro, principalmente, quando a extensão do dano ambiental é grande.
Segundo o secretário executivo adjunto de Pesca e Aquicultura do Amazonas (Sepa), Leocy Cutrim, esse fenômeno acontece principalmente em lagos rasos, quando o nível do rio desce muito rápido. Ele ressalta que o fenômeno natural também acontece em Manaus, a exemplo do Tarumã, onde o nível do rio estava baixando 25 cm por dia.
“Então, essa diferença pode fazer com que alguns peixes fiquem presos no lago e não tenham como sair. Aí diminui o nível de oxigênio, e quando há uma temperatura mais baixa, há uma inversão térmica, aí a circulação daqueles gases mais nocivos que estão em baixo vão para cima e o peixe fica de “aiú”, eles ficam buscando oxigênio na coluna d’água, e como são muitos acabam morrendo”, explicou Leocy.
O secretário também explica que, quando há uma mudança de temperatura, por exemplo, no caso de friagem, quando o lago fica frio acontece o que os especialistas chamam de ‘circulação’. Quando há essa circulação, gases nocivos (amônia, nitrito e nitrato), que ficam no fundo do rio, sobem para a superfície. Esses gases nocivos ficam onde tem raiz podre, lama e a água é mais fria, e tem pouco oxigênio.
“Quando tem uma friagem qualquer, esses gases ruins sobem e fazem com que os peixes não tenham oxigênio na coluna d’água, aí eles vão pra cima atrás de oxigênio na linha d’água, e a gente diz que o peixe foi beber oxigênio. Mas quando tem muito peixe não tem condição, porque é muita disputa, aí eles morrem”, concluiu o secretário.
O engenheiro de pesca da Sepa em Coari, José Levy Sampaio, informou que o quantitativo exato de peixes mortos ainda não foi possível estimar, mas ele destaca que foram milhares. “Daqui para quarta-feira vamos ‘in loco’ averiguar essa situação e estimar um valor real, mas foram milhares”, destacou.
Segundo o engenheiro de pesca Marcel Ribeiro, a mortandade de peixes pode acontecer também por outros fatores como a qualidade da água. Mas, acontece principalmente pela falta de oxigênio dos peixes durante as grandes secas.
*Dá para comer o peixe?*
(Foto: Reprodução redes sociais)
O engenheiro Levy explicou que a mortandade de peixes ocorreu por conta da grande quantidade de peixes em percurso para o Rio Solimões, um processo natural que acontece todos os anos, e também pelo aumento da população de peixes no lago durante o período de seca. Essa população de peixes não conseguiu sair do lago e os que saíram disputaram oxigênio e acabaram morrendo.
“Na época da piracema, o nível da água está crescendo, então, está tendo a troca de água no lago. Logo, esse peixe migra para fora para ele poder desovar, só que nesse percurso, como a quantidade de peixe é muito grande por causa da seca, eles vieram a morrer no canal do lago do Juçara para o Solimões”, explicou o engenheiro local.
O pescador Edson Oliveira Marinho já conhece o fenômeno natural e diz que vez ou outra presenciou isso acontecer. > Karol Pacheco: “Quando aparece o repiquete e começa a encher o rio, os lagos secam quase que totalmente, fica só a lama, e quando tem muito peixe, o peixe fica sem oxigênio, aí eles começam a descer o paraná pra vir para o rio, é isso que acontece lá, quando a vazante é grande”, relata o pescador.
Para o pescador, o período é de fartura, mas também de mortandade dos peixes. Segundo Edson, apesar de muitos peixes acabarem morrendo, os que são pescados ainda vivos não têm problema para serem vendidos e consumidos. Ele também afirma que, nesse período, muitos barcos de outras cidades vão à região para comprar e pescar os peixes.
“Eles migram para o rio para não morreram todos, aí dá pra pegar com mão, de tarrafa, de malhadeira. Mas o peixe é bom pra alimentação, não tem problema nenhum”, defende o pescador. “Conheço muitas pessoas que pescam pra lá. Já fui convidado bastante pra ir pescar nesse período que eles vêm morrendo, mas eu nunca fui”, relata o pescador.
Mas, para o secretário da Sepa, Leocy Cutrim, durante a migração dos peixes, onde eles ainda estão vivos e aparecem em grande quantidade, já é possível que estejam debilitados em busca de oxigênio.
“Nem todos servem para comer, porque alguns já estão em processo de morte, estão morrendo. E o pescador não quer esse tipo de peixe não, ele quer um peixe sadio, que está ali no cardume para ele dar o lance, gelar ele ainda fresquinho. Esse tipo de peixe aí já está começando o processo de debilitação”, opinou.
O engenheiro de pesca Levy acredita que fenômeno natural traz consequências tanto para economia quanto para o ecossistema. “É uma demanda e uma parcela que a gente perde desse pescado. E o município não consegue absorver essa quantidade de peixe que está saindo de dentro do lago, tanto é que eles morrem e os ribeirinhos não conseguem capturar para vender no município, eles são canoeiros de caixinha, não tem como transportar rápido para o município”, disse.
Já o secretário adjunto de Segurança e Defesa Civil de Coari, Jaime dos Santos Alves, acredita que neste ano o impacto do fenômeno não será tão grande, porque anos anteriores já houve secas mais severas.
“Nós já tivemos outras secas que tiveram uma grande mortalidade de peixes, essa aí nem se compara, acho que não chega nem a um terço da maior que nós tivemos. Como o rio está subindo de 10 a 15 cm por dia, isso aí rapidinho vai cessar já. Acredito então que isso não cause tanto impacto na economia, embora ainda cause porque é muito peixe e o consumo na cidade não dá conta”, pontuou.
Fonte ACRITICA.COM


