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Instituto Perspectiva é acusado de fazer ‘pesquisa intencional’ em municípios do AM

Bruno Pacheco – Da Redação

Com pelo menos 40 cidades do Amazonas participando, o Perspectiva Mercado e Opinião tem realizado pesquisas de intenção de voto sobre as eleições municipais de 2024. O que chama a atenção de especialistas, contudo, é a metodologia do instituto na coleta de dados, que tem sido acusado de realizar levantamentos “intencionais”.

A empresa realiza as entrevistas com eleitores dos municípios via telefone (sistema de CATI). Mas, de acordo com informações exclusivas do portal Online Multimídia, o Perspectiva está buscando contatos no Whatsapp para conseguir dar andamento nas pesquisas eleitorais.

De acordo com uma mulher, que preferiu não se identificar, uma funcionário do instituto chegou a fazer contato com ela nessa quarta-feira, 2, por meio do aplicativo de mensagens Whatsapp, informando que a empresa está realizando a pesquisa de telemarketing nos municípios de Silves (a 181.37 quilômetros de Manaus) e em Itapiranga (a 338 quilômetros da capital).

Na mensagem, cujo teor da conversa foi obtido pela reportagem, a servidora da empresa escreve para a mulher: “Se você tiver contato para me ajudar a realizar as pesquisas, agradeço. Provavelmente, amanhã sai o resultado. Todos os resultados estão sendo divulgados pela nossa empresa”.

Até a tarde desta quinta-feira, 3, o resultado da pesquisa eleitoral, contudo, não saiu ainda, conforme o site do Perspectiva mostra.

Servidora do instituto entrando em contato com uma pessoa, por meio do Whatsapp (Arquivo Pessoal)

Legalidade

Para um consultor jurídico procurado pela reportagem, a ação da servidora gera suspeita de fraude e pode interferir no resultado final da pesquisa. “Nesses casos, existe a suspeita de favorecimento de pré-candidatos, porque quem recebe a mensagem, envia os contatos do seu grupo político e isso pode interferir no resultado final, beneficiando até mesmo quem está no poder”, declarou o especialista.

Já um jurista, que também foi questionado pelo Multimídia, explica ainda que a legalidade do procedimento de pesquisas eleitorais perpassa pela oficialização do estudo e a qualidade é verificada pela transparência. “Se a pesquisa está se referindo à gestão dos municípios, ela tem que ter dados mais específicos, abranger todas as classes do município, da zona urbana à zona rural”, pontua.

“Mas, é muito prematuro para colocarmos que os dados são seguros ou não, se tem favorecimento político para o grupo A, B ou C. No linguajar da população, não sabemos realmente quem são os pré-candidatos. O que, da fato sabemos, é que quando uma pesquisa tem uma publicidade muito maior, lógico que vamos ter uma segurança muito maior, mas como é uma obscura, não temos a certeza desses dados”, frisou.

Transparência

A Dra. Denise Coelho, advogada especialista e referência em Direito Eleitoral, explicou nesta quinta-feira, 3, ao portal Online Multimídia, que as pesquisas eleitorais devem obedecer a normas específicas e devem ser registradas no órgão competente de acordo com a legislação vigente.

“A metodologia de pesquisa eleitoral aceita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve atender a padrões e exigências que assegurem transparência, equidade e precisão nos resultados”, pontuou.

A advogada frisa ainda que, nesse sentido, “cumpre destacar a legislação que ampara a pesquisa eleitoral no Brasil é estabelecida pela Lei nº 9.504/1997, a Lei das Eleições”. “Essa lei regulamenta as eleições no país, incluindo as normas referentes à realização de pesquisas eleitorais. A Resolução TSE nº 23.600/2019 também traz as regras específicas para a realização e divulgação das pesquisas eleitorais. E ainda, o Código de Ética dos Profissionais de Pesquisa de Mercado e de Opinião Pública”, reforça.

Denise Coelho destaca uma série de fundamentos que norteiam a metodologia aplicadas nas pesquisas eleitorais:

  • a) Representatividade da amostra: deve ser representar a população-alvo;
  • b) Margem de erro: é um indicador estatístico que mostra a variação esperada dos resultados caso a pesquisa;
  • c) Metodologia de coleta de dados: coleta de dados pode variar entre pesquisas eleitorais, podendo ser realizada através de entrevistas presenciais, por telefone ou online;
  • d) Análise e interpretação dos resultados;
  • e) Imparcialidade e ética.

“Por fim, a fundamentação das pesquisas eleitorais se baseia na utilização de metodologias sólidas, representativas e transparentes, buscando fornecer informações precisas e relevantes sobre as preferências e comportamentos do eleitorado daquela época”, concluiu a advogada Denise Coelho.

Outro lado

O portal Online Multimídia entrou em contato com o Perspectiva Mercado e Opinião questionando sobre a legalidade do processo de pedir contatos da população, por meio do Whatsapp, para dar andamento na pesquisa eleitoral e solicitou um posicionamento sobre a suspeita de fraude. Até a publicação da reportagem, sem retorno.

Polêmica

Não é a primeira vez que uma pesquisa realizada por telefone gera polêmica. O modo de pesquisa, que costuma ser muito mais barata que os tradicionais levantamentos com entrevistas presenciais, traz questionamentos quanto a confiança dos dados.

Em 2018, segundo o Valor, a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) emitiu uma nota pontuando que “os levantamentos e coletas de opiniões realizados por meio de ligações telefônicas para pesquisas eleitorais […] não são recomendados para esse fim, pois nem sempre retratam com fidelidade a percepção real da maioria dos eleitores”.

A nota foi divulgada logo após aparecer no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o registro da encomenda de um levantamento telefônico de intenções de voto para presidente com 500 entrevistas em todo o país.

Na época, a posição da Abep foi endossada pelo diretor geral do Datafolha, Mauro Paulino, que reconhece que pesquisas feitas por telefone são válidas para investigar imagem de produtos de mercado ou opiniões de públicos selecionados, mas “têm muitas limitações” para retratar disputa eleitoral.

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