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Curubão é o primeiro indígena a se eleger para deputado Estadual no AM

O estado mais indígena do Brasil terá, pela primeira vez, um indígena na Assembleia Legislativa a partir de 2027. O ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, Clóvis Curubão (PT), foi eleito deputado estadual no último domingo (4), com 34.869 votos. Em todo o Brasil, quatro indígenas foram eleitos para os parlamentos estaduais.

Corubão é da etnia Tariana, que, no território brasileiro, tem uma população estimada em mais de 2,6 mil pessoas. Duas vezes prefeito de São Gabriel da Cachoeira, ele construiu sua sucessão com o sobrinho, Egmar Curubinha (PT), atual gestor municipal da cidade de 51 mil habitantes, a maioria indígenas.

Apesar da origem, Curubão não teve o apoio formal das principais entidades do movimento indígena, que desde 2017 estão em campanha para aumentar o número de representantes na política. O distanciamento ocorre em razão de pautas que já foram defendidas pelo ex-prefeito, incluindo o garimpo em terras indígenas, que a maioria das organizações é contrária.

A campanha, que teve R$ 173 mil doados pelo partido, foi concentrada em visita a comunidades indígenas e não indígenas do interior do estado, em especial do Alto Rio Negro. Entre as propostas de Curubão, estão a padronização do transporte fluvial, melhoria da infraestrutura em comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas, preservação ambiental e valorização da medicina tradicional. A reportagem tentou entrevistá-lo, mas não houve retorno até o fechamento deste material.

MOVIMENTO QUER DIÁLOGO

Para A CRÍTICA, a coordenadora da Articulação dos Povos e Comunidades Indígenas do Amazonas (Apiam), Maria Baré, disse que a entidade deve procurar o novo parlamentar para aproximá-lo do movimento organizado. A Apiam é a principal organização indígena do Amazonas, base da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), ligada à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a maior do país.

“A gente tem mais esperança de conseguir avançar nos diálogos, nas políticas, nas proposições e nas demandas relacionadas às questões indígenas. O Curubão entra como esse deputado estadual. Ele, por mais que tenha defendido pautas problemáticas, a questão do garimpo ou contra a demarcação das terras indígenas, está tendo a oportunidade de fazer diferente”, avalia Maria.

Segundo ela, mais do que as discordâncias a respeito de algumas pautas, é importante que o movimento indígena e o parlamentar se aproximem para garantir a melhoria das condições de vida para as populações originárias do estado. “Nosso desejo é que ele, enquanto indígena, possa ser essa referência da Comissão de Assuntos Indígenas na Assembleia, porque, nos últimos anos, a gente não tem tido diálogo com a própria Assembleia. Infelizmente, a maioria dos nossos deputados não têm esse entendimento do papel do Estado junto aos povos indígenas”, comenta.

Maria Baré diz que o cenário, hoje, é preocupante e precisa de soluções urgentes. “O próprio governo do Estado não tem avançado nas políticas voltadas aos povos indígenas. Por exemplo, na política de educação escolar indígena, na política de saúde indígena. Acham que a responsabilidade é toda do governo federal. Não é”, pontua.

PRESENÇA INDÍGENA OSCILA

Em 2026, três indígenas foram releitos para a Câmara dos Deputados: Paulo Guedes (PT-MG), Juliana Cardoso (PT-SP) e Sonia Guajajara (PSOL-SP). Com isso, a Bancada do Cocar cairá de quatro para três integrantes a partir de 2027. Célia Xakriabá (PSOL-MG), que havia sido eleita em 2022, não conseguiu renovar o mandato.

Nos estados, quatro indígenas foram eleitos para as Assembleias Legislativas. Além de Curubão, no Amazonas, também conquistaram vagas de deputados Índia Armelau (PL), no Rio de Janeiro, Capitão Assumção (PL), no Espírito Santo, e Limma (PT), no Piauí. Com esse resultado, ao menos nos parlamentos estaduais, a presença indígena crescerá de dois para quatro a partir de 2027.

Além dos deputados, Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito governador da Bahia e continuará sendo o único chefe do Executivo estadual indígena do país. No Senado, nenhum indígena foi eleito em 2026.

Estado é o mais indígena

O Amazonas tem a maior população indígena do Brasil. São 490.935 pessoas, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas eleições de 2026, 73.580 eleitores do estado se declararam indígenas, conforme dados do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).

Assembleia Legislativa do Amazonas nunca teve deputado estadual indígena, mas cenário muda em 2027

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 Apesar da presença expressiva, a representação política ainda enfrenta obstáculos. Neste ano, 22 candidatos indígenas disputaram vagas na Assembleia Legislativa, mas apenas Curubão foi eleito. Ele recebeu pouco mais da metade de seus votos em São Gabriel da Cachoeira: foram 17.563 no município, onde concentrou 74,16% dos votos válidos para deputado estadual.

Apib vê perigo no Congresso

Em nota divulgada na segunda-feira (5), um dia após o resultado da eleição, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil afirmou que o resultado do primeiro turno de 2026 deve levar a um Congresso Nacional mais contrário às pautas indígenas. A entidade citou o crescimento de bancadas de direita e de grupos que se posicionam contra demarcações e direitos territoriais.

Segundo a Apib, a nova composição da Câmara e do Senado aumenta a pressão sobre os territórios tradicionais e deve colocar os direitos indígenas novamente no centro de disputas legislativas no próximo ciclo.

No texto divulgado pela Campanha Indígena, a organização classificou o próximo Congresso como o “mais inimigo dos povos da história” e defendeu a mobilização conjunta de suas organizações regionais.

Primeiro do país

Segundo a Justiça Eleitoral, o primeiro descendente indígena eleito no Brasil foi o vereador Manoel dos Santos, Seu Coco, em 1969, no municipio de Oiapoque (AP). Mas, de acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, foi uma mulher a primeira

Primeiro do país descendente eleita: a vereadora Carmelita Cruz, em Rodelas (BA), em 1963. A Justiça Eleitoral tem feito ações para promover a participação dos indígenas na política do país desde 2019, com a elaboração de cartilhas bilíngues e urnas adaptadas à linguagem indígena.

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